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60
Ao importar do cinema a "produção de ator feita para atores" e protagonizar homens de meia-idade de relativo sucesso, a série falha em criar empatia com o público
The Kominsky Method 60%

Assinantes dos serviços de streaming podem finalmente descansar em paz. Semanas e semanas de dúvidas desde o lançamento na Netflix finalmente tiveram uma resposta: The Kominsky Method, é, sim, uma comédia.

Não só. É a mais bem sucedida da longeva carreira de Chuck Lorre, que em quase três décadas de carreira nos deu de Two and a Half Men ao sucesso absoluto The Big Bang Theory. A série levou não só o título de comédia do ano no Globo de Ouro, como também deu o prêmio ao seu protagonista, Michael Douglas.

Como bem definiu a imprensa americana, a nova produção de Lorre fica em algum lugar entre as sitcoms (comédias de situação) e as sadcom (comédias tristes, ou depressivas). Aparentemente, aos olhos da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, tinha comédia o suficiente para bater a favorita ao posto The Marvelous Mrs. Maisel – contra o que registramos aqui nosso protesto.

Isso porque boa parte do apelo em torno de The Kominsky Method está em seu elenco: Michael Douglas e Alan Arkin numa produção sobre as agruras do envelhecimento masculino. “Queria escrever sobe o que é envelhecer o que isso evoca. Queria escrever sobre pessoas que perdem entes amados, têm de lidar com problemas de saúde e filhos crescidos”, disse Lorre em entrevista à Variety.

E assim, pela primeira vez em anos, o produtor das mais bem-sucedidas comédias da TV aventurou-se a encarar sozinho o papel em branco e escrever seu piloto. Isso, cabe dizer, num momento em que o público já se perguntava quantas piadas sobre a próstata a cultura pop ainda seria capaz de tolerar. Com The Kominsky Method, Lorre mostrou que o limite ainda está a algumas milhas adiante no horizonte.

O que é preciso saber sobre a série é que ela se centra em torno da amizade do ator e professor de atuação Sandy, vivido por Douglas, e seu agente Norman, Arkin. Qualquer outro personagem, femininos especialmente, resumem-se a estereótipos, generalizações e superficialidades  A relação entre os dois atores está no centro da trama, que os mostra dia a dia padecendo da perda da juventude e de uma certa condescendência com as novas gerações.

Aí pode estar um dos motivos pelos quais Kominsky Method era tão pouco falado até a consagração no Globo de Ouro. É difícil gerar identificação com os dois homens brancos e de relativo sucesso em tempos em que a repercussão em redes sociais parece ser chave no sucesso (e na já aventada renovação) de qualquer produção. Não seria de se surpreender se boa parte da audiência só investigasse sua existência após essas vitórias.

No limite, a produção parece importar para o mundo das séries um gênero que é queridinho da Academia de Hollywood: a do filme de ator feito para atores. Um elenco estelar lutando por relevância e a meia-idade. É difícil ressaltar cenas memoráveis, frases de efeito ou risadas genuínas geradas pelo que o Globo de Ouro retificou como, ao fim e ao cabo, uma comédia.

Mais além, o texto de Lorre e a entrega de Douglas, monstro da sétima arte que é, falham ao gerar empatia. Aos fãs do ator, uma reprise de Um Dia de Fúria será infinitamente mais recompensadora. Ao menos, aqui, se entrega o que se promete.


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The Author

Clarice Cardoso

Clarice Cardoso

Jornalista especializada em cultura e política, atuou nas redações da Folha de S.Paulo, de O Estado de S. Paulo e em CartaCapital. Cofundadora e editora do TelaTela.

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