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Academia de Artes e Ciências Cinematográficas divulgou nesta terça-feira (22) sua lista de indicados ao Oscar 2019 em um ano especialmente atribulado. Em muitas ocasiões, o noticiário recente envolvendo a premiação mais importante da indústria parecia pertencer mais às páginas dos tabloides e sites de fofoca do que aos cadernos de cultura e resenhas cinematográficas.

A poucas semanas da cerimônia, o prêmio mais importante do cinema periga se perder em polêmicas e transformar em novo vexame a noite mais glamourosa do ano para a indústria.

Queda de audiência, polêmicas facilmente evitáveis, falta de noção política e social, concorrência desleal e tentativas para modernizar uma cerimônia longa e burocrática estão na lista dos problemas que a Academia de Hollywood tem enfrentado para tentar recuperar audiência e relevância. Confira os principais deles:

Quem se importa com o Oscar?

Nós, é claro, além de uma legião de cinéfilos e profissionais da indústria mundial. Mas a resposta não é a mesma quando direcionada ao público em geral.

Apenas 20% dos americanos, por exemplo, conseguem se lembrar do vencedor do prêmio mais importante do ano passado, o de melhor filme. Segundo uma pesquisa da Hollywood Reporter, esse foi o número total de pessoas que conseguiram se lembrar de A Forma da Água, a belíssima e sensível fantasia dirigida por Guillermo Del Toro.

Indo um ano para trás, a situação é ainda pior: muitos citam La La Land, e não Moonlight, como o vencedor de 2017. Justamente o longa que foi erroneamente anunciado como vencedor num dos episódios mais constrangedores e amadorísticos da história da Academia. Só 5% se lembram de Spotlight, de 2016 e 9% de Birdman, de 2015. Apenas 12 Anos de Escravidão tem resultado melhor ao ser citado como o vencedor de 2014, com 17% das citações na pesquisa.

Se é verdade que poucos dos vencedores foram capazes de arrastar legiões para o cinema – o maior lucro dos anos recente é de A Forma da Água, que alcançou US$ 63 milhões nos EUA -, os números atestam para a urgente necessidade de renovação da marca, que, apesar de tudo, ainda é considerada sinônimo de alta qualidade cinematográfica por 31% dos entrevistados.

A categoria desastrosa

Talvez tentando contornar esse tipo de problema e acenar para campanhas de fãs de filmes mais ligados à cultura pop, a Academia anunciou em setembro a categoria de Melhor Filme “Popular”. Nem sempre, ou quase nunca, a maior bilheteria do ano equivale ao filme mais premiado, mas há controvérsias nessa linha de raciocínio.

A tentativa, que parecia acenar mais a demandas dos estúdios, logo foi abandonada por receber justas críticas. A escolha daria a entender que não haveria valor artístico nos blockbusters, a ponto de justificar uma separação entre eles e o resto da produção. Não só isso não é verdadeiro, como o próprio histórico do Oscar prova que, havendo valor artístico, o filme costuma ser premiado. Vale lembrar de casos como Titanic ou o Senhor dos Anéis, para citar apenas alguns.

O (ex-)apresentador homofóbico

Há anos, o programa de transmissão do Oscar vê seus números de audiência em queda vertiginosa. Se teve 43,7 milhões de espectadores em 2014, com a memorável apresentação de Ellen DeGeneres, caiu ano a ano para 36,6 milhões, 34,4 milhões, 32,9 milhões, até chegar e poucos 26,5 milhões na edição com Jimmy Kimmel no ano passado.

A apresentação é considerada por muitos essencial para atrair a audiência e contratos de publicidade. Mas para este ano, especialmente, tem sido difícil encontrar artistas que contemplem as exigências dos membros e digam sim para o convite. Assim, depois de muita expectativa, foi anunciado o comediante Kevin Hart como o grande nome de 2019.

Durou poucas horas: tuítes antigos com piadas homofóbicas e trechos de apresentações tornaram-se virais mostrando um comportamento altamente preconceituoso de Hart em relação à comunidade LGBTQ. Para piorar, o comediante recusou-se a pedir desculpas, e acabou deixando a vaga em aberto. Em entrevista a Ellen DeGeneres, Hart disse sentir-se perseguido por uma campanha de difamação pessoal e reforçou que não pretende retomar o posto.

Que esse passado não tenha sido revisado antes da escolha é atitude das mais ingênuas. Especialmente após anos sofrendo duras críticas por falta de diversidade (#OscarsSoWhite), pelo tratamento delegado às mulheres (#AskHerMore), e pelo crescente tom político dos discursos de aceitação, seria um suicídio público envolver-se com homofobia a esta altura do campeonato.

A campanha para esconder atores e atrizes

Há algumas semanas, o Screen Actor’s Guild, que fará sua própria cerimônia no próximo dia 27, acusou a Academia de Hollywood de pressionar atores para que não apareçam em outras premiações até o dia do Oscar, no final de fevereiro. “A tentativa aparente da Academia de evitar que nossos membros apareçam em sua própria premiação é ultrajante e inaceitável”, disse em comunicado o Sindicato dos Atores. “Exigimos que a Academia pare imediatamente com essas ações inapropriadas.”

Segundo as acusações, são diversas as denúncias de pressão “desmedida” para esconder os atores que devem fazer aparições no Oscar. “A intimidação dos membros do SAG-AFTRA visa limitar suas oportunidades de serem vistos e de homenagear o trabalho de seus pares ao longo da temporada. Atores e atrizes deveriam ser livres para participar de qualquer celebração da indústria. (…) A temporada de premiações pe um momento especial de reconhecimento e celebração de atores e atrizes pela qualidade de seu trabalho. Esperávamos que a Academia honrasse esses objetivos”, prossegue o texto divulgado na segunda (14).

As acusações, gravíssimas por si só, não se resumem ao Sindicato dos Atores. Segundo reportagem da Hollywood Reporter, produtores do Globo de Ouro estão “furiosos” com interferências da Academia no recrutamento de apresentadores para a cerimônia que aconteceu no último dia 6.

Segundo os relatos, os assessores e empresários dos artistas respondiam aos produtores que a Academia os havia notificado de que, se seus clientes apresentassem prêmios no Globo de Ouro, poderiam esquecer as chances de subir ao palco no Oscar. A atriz Margot Robbie teria sido uma das estrelas que desistiu da primeira premiação em nome da segunda, segundo o Daily Mail.

A prática não é inédita, mas se tornou mais violenta na temporada atual, especialmente após a polêmica com Hart deixar o Oscar sem apresentador.

A cerimônia sem apresentador

O que se especula na mídia é que, diante da quantidade de “nãos” que receberam de várias celebridades e das dificuldades em achar um nome de força para apresentar a cerimônia, os produtores decidiram investir em grupos de artistas. Eles provavelmente irão apresentar segmentos individuais, o que não deixa de causar preocupações para quem se lembra da desastrosa cerimônia com Anne Hathaway e James Franco em 2011.

E mais: conseguir tantos nomes de talento a poucas semanas de o programa ir ao ar não deve estar sendo tarefa das mais simples. Também porque o apresentador costuma ser visto como um dos principais atrativos de público e parceiros comerciais. Sem um nome forte, a aposta principal seria explorar grandes nomes da música que se destacaram no cinema no ano passado, caso de Lady Gaga. Por outro lado, a chance de diminuir aparições e discursos pode levar a uma cerimônia mais dinâmica, o que não deixaria de ser um ganho.

Acontece que a única vez em que o Oscar ficou sem apresentadores oficiais da cerimônia aconteceu há 30 anos, num dos episódios mais vergonhosos de sua história: os 11 minutos do musical com Robe Lowe Branca de Neve (as imagens abaixo falam por si só). Ainda assim, deu o dobro da audiência do ano passado.


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The Author

Clarice Cardoso

Clarice Cardoso

Jornalista especializada em cultura e política, atuou nas redações da Folha de S.Paulo, de O Estado de S. Paulo e em CartaCapital. Cofundadora e editora do TelaTela.

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