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Veneza – Bastou a argentina  Lucrecia Martel, a presidente do júri do Festival de Veneza 2019, anunciar que o vencedor da 76ª edição do evento era o hollywoodiano “Joker” (ou “Coringa”), para que algumas vaias fossem ouvidas, posts pipocassem no mundo todo sobre a escolha de um “filme de herói” para receber o Leão de Ouro e sobre o precedente que a decisão abre em festivais que historicamente prestigiam os chamados filmes de autor.

Isso sem contar a já iniciada discussão entre fãs de quadrinhos, de cinema de arte, entre outras discordâncias. Por um lado, como a própria Martel, uma das mais inventivas cineastas da atualidade, observou no primeiro dia do festival, o mundo poderia se surpreender com o que ela gosta de ver.

Lucrécia, pelo visto, vê de tudo, aprecia o cinema de narrativa e, claro, é democrática.

Isso porque afirmou na coletiva de imprensa logo após o anúncio dos vencedores, na noite de encerramento do festival (7 de setembro), que a decisão “felizmente não foi unânime.” E acrescentou: “Isso é algo extraordinário. E agradeço aos jurados, pois os prêmios vieram de conversas onde houve muitas opiniões. Sou a presidente de um júri democrático e não precisamos de unanimidade para entrarmos em acordo.”

Ponto para Lucrécia e sua equipe de jurados, que souberam ver em Coringa a combinação rara da direção de Todd Phillips com a genialidade da atuação de Joaquin Phoenix, tudo isso alinhando com um roteiro preciso e cortante.

Lucrecia Martel, presidente do júri, disse que o mundo poderia se surpreender com o que ela gosta de ver. E se surpreendeu!

Por outro lado, vem a questão: Mas um filme como “Coringa”, um dos mais aguardados e já divulgados, que tem  a máquina de Hollywood a seu favor, precisa de um Leão de Ouro? Não seria o caso de jogar luz sobre outra obra, que, esta sim, sem o aparato do marketing dos ‘filmes de herói (ou anti-herói, neste caso) ‘precisam’ mais de um prêmio como o Leão para ganhar a visibilidade que merecem?

A discussão é complexa e está só começando. Em uma seleção veneziana em que autores respeitados, como o japonês Hirokazu Kore-Eda (La Verité), o francês Robert Guediguian (Gloria Mundi), Atom Egoyan (Gues of Honor), Roy Andersson (Leão de Ouro em 2014 por Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência, e Leão de Prata de Melhor Direção este ano por About Endlessness), entre outros, apresentaram obras apenas corretas (ou decepcionantes no caso de Egoyan), apostou-se que a decisão do júri se dividiria entre os mais clássicos Marriage Story (de Noah Baumbach), Babyteeth (de Shannon Murphy), Martin Eden (de Pietro Marcelo) e J’accuse (de Roman Polanski).

Os mais ousados e/ou experimentais da seleção de 21 longas em competição certamente foram Ema, do chileno Pablo Larrain, que infelizmente ficou na tentativa e não no sucesso, e o libertário N. 7 Cherry Lane, animação de Yonfan, que levou o Melhor Roteiro.

Diante da amostragem desta edição, de fato Coringa larga na frente por sua capacidade de combinar o cinema comercial com a assinatura de Phillips e, sim, a autoralidade de Phoenix. Justiça seja feita; sem um ator em estado de graça como ele está em Coringa, o filme poderia facilmente escorregar para um retrato borrado e apenas melancólico do personagem da DC.

No entanto, como afirmou a diretora canadense Marry Harron, “Joker pegou a mitologia de uma comic book que tem quase 90 anos (e já foi retratada e adaptada de tantas formas) e a transformou e revitalizou completamente de uma forma que é completamente oportuna para a atualidade. Até mesmo para a política americana de hoje.”

Palavra do júri: “Joker pegou a mitologia de uma comic book que tem quase 90 anos (e já foi retratada e adaptada de tantas formas) e a transformou e revitalizou completamente de uma forma que é completamente oportuna para a atualidade”, afirmou Marry Harron (de branco)

 

Como Nascem os Monstros

De fato, mas o pulo do gato está no tratamento dado à narrativa que poderia se chamar “Como nascem os Monstros”.  Ainda que tenha inspiração no comic book The Killing Joe, de Alan Moore, o roteiro de Phillips e Scott Silver é sólido e original, numa espiral de medo, delírio, decepção e violência que molda o caráter do personagem para, então, passar do inofensivo, e submisso, Arthur Fleck para o psicopata Joker. Phillips também citou o filme mudo The Man Who Laughs, exemplar do expressionismo alemão dirigido por Paul Leni em 1928, como uma de suas inspirações.

“Criativamente, pegou um personagem que sempre foi um vilão e retratou sua história de origem com uma incrível compaixão; mostrou o desenvolvimento. Às vezes, quando as pessoas são oprimidas e abusadas elas não se tornam santos. Às vezes ela se tornam assassinos. E isso é algo para se estar atento”, completou Harron, que, no júri, esteve também ao lado do crítico e historiador Piers Handling, do Canadá, da atriz britânica Stacy Martin, do diretor de fotografia mexicano Rodrigo Prieto, do diretor japonês Tsukamoto Shinya e do diretor italiano Paolo Virzì.

A performance magnífica de Phoenix merecia sim a Coppa Volpi de Melhor Ator, mas quem levou foi o italiano (também ótimo no papel) Luca Marinelli por Martin Aden (de Pietro Marcello, um dos mais inventivos diretores italianos contemporâneos).

Phoenix era favorito para levar a Coppa Volpi de Melhor Ator, mas, ao receber o Leão de Ouro, “Coringa” não poderia levar outro prêmio

“Nós todos ficamos muito impressionados com ele, mas, ao dar o Leão de Ouro para o filme (Coringa), não podíamos premiá-lo (Joaquin). No entanto, roteiro, produção, muitas muitas coisas elevaram este filme à condição de cinema sério”, completou a canadense.

Lucrécia, que pareceu muito consciente do paradigma que quebra ao premiar pela primeira vez em Veneza um filme de herói/ quadrinhos, salientou a ousadia do estúdio ao apostar em um filme que foge à regra dos justamente chamados filmes de herói: “É notável que uma indústria que se preocupa tanto com os negócios tenha assumido os riscos que assumiu coma produção de Joker (Coringa).”

O  inimigo é o Sistema

A questão importante aqui não é somente a econômica (e/ou de bilheteria), mas sim a narrativa que se constrói. “É indubitável que fazer de um filme de ação, para o público que vai ver este filme, uma reflexão sobre os heróis ou os anti-heróis, onde o inimigo não é um homem, mas sim o sistema, me parece muito valioso hoje não só para os Estados Unidos mas também para o mundo”, afirmou a presidente do júri.

A diretora argentina fez questão de ressaltar, claro, a inegável qualidade e maestria da direção de Phillips, “com o uso do som, da imagem, da produção que, para qualquer diretor de cinema, é memorável.”

Lucrécia ainda ressaltou que muitos outros filmes selecionados para a competição eram excelentes. “Mas acontece que existe esta situação dos prêmios, que vocês concordam comigo que comparar filmes é uma atividade um pouco absurdo, mas esportiva. Hoje em dia, a cultura é muito esportiva.”

Dito isso, Coringa é seguramente, para além de um filme de herói, um retrato potentíssimo da sociedade contemporânea, suas mazelas, sua falta de empatia e sua neurose em dividir o mundo em vencedores e perdedores. “Em Coringa há a ferocidade, o ressentimento, o sentimento de exclusão, a solidão, a instabilidade mental, a dor”, observou Paolo Virzì.

“Coringa” evoca a Nova York dos filmes de Scorsese. Não por acaso, Phillips convocou Robert De Niro para o elenco

A influência do cinema de mestres como Martin Scorsese e do cinema americano dos anos 1970, também é elemento crucial para dar a Coringa o tal selo de “filme sério”. Não por acaso, Phillips convocou Robert De Niro para ser um dos personagens principais e Emma Tillinger Koskoff para ser sua produtora. Detalhe, Emma produziu vários longas de Scorsese, como Os Infiltrados e o ainda inédito The Irishman.

Virzì, inteligentemente, comentou sobre este ponto com os jornalistas que tentavam entender a escolha do júri: “Há homenagens explícitas a um cinema não de herói, que não fugiram ao olhar observador qualificado que são vocês, como Taxi Driver, por exemplo. Tem uma carta de amor ao cinema dentro deste filme. E ainda há uma performance desumana não só do gigante que é Joaquin Phoenix, mas dos colegas, à esplêndida vizinha dele. Não só nos impressionou e tocou a qualidade artística mas a força penetrante de perceber o espírito do tempo.”

“A verdade se tornou ofensiva”

Chega a ser curioso para muitos que um diretor de comédias ultra populares como Se Beber Não Case, Escola de Idiotas e Cães de Guerra, aposte agora em um drama duro e, por mais contraditório que pareça, realista.

“Para mim é tudo sobre contar histórias. Não há um grande abismo entre as comédias que fiz e este filme.  Sinto que, em geral, comédia é sobre dizer a verdade. E a verdade se tornou ofensiva nos Estados Unidos. Então eu meio que me distanciei das comédias porque as pessoas não suportam a verdade”, afirmou o cineasta nova-iorquino na conversa com jornalistas após receber o Leão de Ouro.

“Coringa” é resultado da combinação rara da direção de Todd Phillips com a genialidade da atuação de Joaquin Phoenix

Segundo Phillips, o objetivo de Coringa é falar a verdade. “E pensei que há outra forma de falar a verdade, fazendo outro tipo de filmes.  Então, este é o objetivo deste filme, Coringa. Mas no começo da minha carreira, eu fazia documentários. Eu sempre fui obcecado com a verdade. E todos os meus filmes, ainda que ridículos que as comédias sejam, o que eu acho é que a comédia é baseada na verdade. Os tempos mudam, as coisas mudam. E a verdade se tornou ofensiva. Então não sei onde vou estar em cinco, seis anos.”

Resta saber se o espírito do tempo que fez o júri optar por Coringa irá consagrar ainda mais, em questão de produção, filmes que mantém um pé na canoa autoral e outra no cinema comercial. Do lado autoral, produções até então desprezadas pelos grandes estúdios, destas que contém mais drama que cenas de ação, podem sair da gaveta. Do outro, o cinema de autor, entendendo-se isso como o que não conta com o aparato do marketing para se fazer notar, pode ir parar mais ainda no fundo das gavetas.

É observar o espírito do tempo e ver. E aguardar, claro, a temporada do Oscar 2020, onde certamente Joker/Coringa terá o tapete vermelho estendido.

 

 

 

 

 

Editor's Rating

9.5
Ao premiar Joker Movie / Coringa com o Leão de Ouro do Festival de Veneza 2019, o júri presidido por Lucrécia Martel não só quebrou paradigmas como elevou o filme de Todd Phillipps ao status de "filme de autor". O fato é que o longa é a combinação rara de um projeto ousado, com roteiro potente, direção precisa e do talento de Joaquin Phoenix. Em um filme de origem que é marcado pelo drama, "Coringa" é, para além de uma história de herói (ou anti-herói), um retrato potentíssimo da sociedade contemporânea, onde o inimigo não é um homem, mas sim o sistema. "Me parece muito valioso hoje não só para os Estados Unidos mas também para o mundo”, afirmou a presidente do júri. Por tudo isso, apesar de "não precisar" de um Leão de Ouro para firmar sua carreira e construir sua estrada até o Oscar 2020, "Coringa" fez jus ao prêmio.
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The Author

Flavia Guerra

Flavia Guerra

Jornalista, documentarista e roteirista. Especializada em cinema, foi colunista do Café com Jornal e da Band News; atuou em O Estado de S. Paulo. Cofundadora e editora do TelaTela.

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